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Ouve, Magano, a Voz, de Quem te Canta

Gregório de Matos (1636–1696)

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O começo

Ouve, Magano, a voz, de quem te canta / Em vez de doces passos de garganta / Amargos pardieiros de gasnate: / Ouve, sujo Alparcate, / As aventuras vis de um Dom Quixote / Revestido em remendo de picote.

Remendado dos pés até o focinho / Me persuado, que és Frade Antoninho: / Por Frei Basílio sais de São Francisco, / E entras Frei Basilisco, / Pois que deixas à morte as Putas todas, / Ou já pela má vista, ou pelas fodas.

Tu tens um membralhaz aventureiro, / Com que sais cada trique ao terreiro / A manter cavalhadas, e fodengas, / Com que as putas derrengas; / Valha-te: e quem cuidara, olhos de alpistre, / Que seria o teu membro o teu enristre!

Gabas-te, que se morrem as Mulatas / Por ti, e tens razão, porque as matas / De puro pespegar, e não de amores, / Ou de puros fedores, / Que exalam, porcalhão, as tuas bragas, / Com que matas ao mundo ou as estragas.

Dizem-me, que presumes de três partes, / E as de Pedro serão de malas artes: / Boa voz, boa cara, bom badalo, / Que é parte de cavalo: / Que partes podes ter, vilão agreste, / Se não sabes a parte, onde nasceste?

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