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Oh Não te Espantes Não, Dom Antônio

Gregório de Matos (1636–1696)

História3 min de leitura3 páginas

O começo

Oh não te espantes não, Dom Antonio, / Que se atreva a Bahia / Com oprimida voz, com plectro esguio / Cantar ao mundo teu rico feitio, / Que é já velho em Poetas elegantes / O cair em torpezas semelhantes.

Da Pulga acho, que Ovídio tem escrito, / Lucano do Mosquito, / Das Rãs Homero, e destes não desprezo, / Que escreveram matérias de mais peso / Do que eu, que canto cousa mais delgada / Mais chata, mais sutil, mais esmagada.

Quando desembarcaste da fragata, / Meu Dom Braço de Prata, / Cuidei, que a esta cidade tonta, e fátua / Mandava a Inquisição alguma estátua / Vendo tão espremida salvajola / Visão de palha sobre um Mariola.

O rosto de azarcão afogueado, / E em partes mal untado, / Tão cheio o corpanzil de godolhões, / Que o julguei por um saco de melões; / Vi-te o braço pendente da garganta, / E nunca prata vi com liga tanta.

O bigode fanado feito ao ferro / Está ali num desterro, / E cada pelo em solidão tão rara, / Que parece ermitão da sua cara: / Da cabeleira pois afirmam cegos, / Que a mandaste comprar no arco dos pregos.

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