Ontem, Nise, a Prima Noite
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
Ontem, Nise, a prima noite / vi sobre o vosso telhado / assentados em cabido / cinco, ou seis formosos gatos. / Estava a noite mui clara / fazia um luar galhardo, / e porque tudo vos diga, / estava eu em vós cuidando / O Presidente, ou Deão / na Cumeeira sentado / era um gato macilento / barbirruço, e carichato. / Os demais em boa ordem / pela cumeeira abaixo / lavandeiros de si mesmos / lavavam punhos, e rabos. / Tão profundo era o silêncio, / que não se ouvia um miau, / e o Deão o interrompeu / dando um mio acatarrado. / Tossiu, tossiu, e não pôde / articular um miau, / que de puro penitente / traz sempre o peito cerrado. / Eis que um gatinho reinol / mui estítico, e mui magro / relambido…
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