Herói Númen, Herói Soberano
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
1Herói Númen, Herói soberano, / Cujo esforço, e conceito peregrino / Transcende os termos do limite humano, / E quase logra foros de divino: / Ouvi, se é, que as grandezas do Oceano / Cabem neste clarim tão pouco fino, / Que mais preclara tuba, e voz merece / Cam.Quem a tamanhas cousas se oferece.
2Tu, que abres o cristal da Aônia fonte, / Ó doce Musa, se até agora ingrata, / Solta a corrente, porque em verso conte, / O que só cabe em lâminas de prata: / Fecunde esse cristal tão duro monte, / Que se fluido, e belo se desata. / Eu farei, que se admire no universo / Cam.Se tão sublime preço cabe em verso.
3Sê pródiga comigo, porque vejo, / Que hei de cantar proezas levantadas, / E do ouro, que cria o Lago Tejo / Te farei uns pendentes, e arracadas: / Põe, Musa amada, fim ao meu desejo, / E terás para o colo as congeladas / Lágrimas puras, e no dedo amante / Cam.Outra pedra mais clara, que diamante.
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