Que Ande o Mundo Mascarado
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
1Que ande o mundo mascarado / jogando conosco o entrudo, / e que cada qual sisudo / ande atrás dele esgalgado! / que nenhum desenganado / este patifão conheça, / e que lhe quebre a cabeça / para ter dele vitória! / Boa história.
2 Mas que alguns queiram viver / vida tão bruta, e tão fera, / como que se não houvera / mais que nascer, e morrer: / que estes mesmos queiram ser / tão nobres, tão absolutos, / como desbocados brutos / correndo pela carreira! / Boa asneira.
3 Que haja turcos belicosos / filhos da perversidade, / havendo na cristandade / Monarcas tão poderosos: / que não se juntem zelosos / para prostrar seus furores, / mandando-se embaixadores / de eloquência persuasória! / Boa história.
4 Mas que haja com mais extremos / entre cristãos batizados / sacrílegos, renegados, / ímpios, judeus, e blasfemos: / que algum cristão (como vemos) / dos tais seja muito amigo, / tendo tão grande perigo / de pagar-se-lhe a manqueira! / Boa asneira.
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