Morro de Desconfianças
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
Morro de desconfianças, / e inda assim, Marfida, morro, / se duvidoso constante, / e se incrédulo devoto. / Indiscretamente acabo, / porque nesciamente troco / a vida, que tu me dás, / pela morte, que eu me tomo. / Morrendo de meus temores / sinto não morrer, meus olhos, / contente da tua mão, / se não triste de mim próprio. / Se foras minha homicida, / morrera eu, meu bem, gostoso, / mas que alegre hei de morrer / sendo o matador, e o morto? / Tu não me matas, Marfida, / que isso é só para ditosos, / dúvidas da fé me matam, / que eu mesmo levanto, e movo. / Mata-me o meu pensamento, / que a meu pesar se tem ódio / os sentidos, e as potências / dentro em meu peito composto. / Se me vejo, me…
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