Meu Deus, que Será de Mim?
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
1:AlmaSe o descuido do futuro, / e a lembrança do presente / é em mim tão continente, / como do mundo murmuro? / Será, porque não procuro / temer do princípio o fim? / Será, porque sigo assim / cegamente o meu pecado? / mas se me vir condenado, / Meu Deus, que será de mim?
2:DemônioSe não segues meus enganos, / e meus deleites não segues, / temo, que nunca sossegues / no florido dos teus anos: / vê, como vivem ufanos / os descuidados de si; / canta, baila, folga, e ri, / pois os que não se alegraram. / dous infernos militaram. / Bangüê, que será de ti?
3:AlmaSe para o céu me criastes, / Meu Deus, à imagem vossa, / como é possível, que possa / fugir-vos, pois me buscastes: / e se para mim tratastes / o melhor remédio, e fim, / eu como ingrato Caim / deste bem tão esquecido / tenho-vos tão ofendido: / Meu Deus, que será de mim?
4:DemônioTodo o cantar alivia, / e todo o folgar alegra / toda a branca, parda e negra / tem sua hora de folia: / só tu na melancolia / tens alívio? canta aqui, / e torna a cantar ali, / que desse modo o praticam, / os que alegres pronosticam, / Bangüê, que será de ti?
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.