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Porque a Fama vos Celebre

Gregório de Matos (1636–1696)

História2 min de leitura2 páginas

O começo

1Porque a fama vos celebre, / meu Tenente mercador, / dizem em vosso louvor, / que vendeis gato por lebre: / temo, que o trato vos quebre, / e temo, que vos quebreis, / quando as bocas não tapeis, / que dizem, por onde andais, / o modo, com que comprais, / e o modo, com que vendeis.

2Se vós a boca vazia / tapásseis do nosso Alferes, / não disseram más mulheres / mal da vossa mercancia: / que o Alferes a porfia / anda estrugindo os quartéis / com dous mil aqui-d’El-Reis, / porque sois tão mau cristão, / que o que vos custa um tostão, / vendeis por duzentos réis.

3Se os paios, que vós vendeis, / são do castelo de vide, / guardai-lhe embora a pevide, / mas co não a semeeis: / porque se esta terra encheis / de tão pobre sementeira, / sobre perder a queijeira, / em que ganhais quatro réis, / virão os Almotacéis / meter-vos na Leoneira.

4Se os paios tão podres são, / quando vo-los pede alguém, / quando os vendeis muito bem, / como é cada qual tão são? / o certo é, meu Irmão, / que nos trazeis enganados, / pois sois na verdade tal, / que gabando-os sem sal / no-los vendeis bem salgados.

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