Liras
Gregório de Matos (1636–1696)
O começo
Oh não te espantes não, notomia, / Que se atreva a Bahia / Com oprimida voz, com plectro esquio / Cantar ao mundo teu rico feitio, / Que é já velho em Poetas elegantes / O cair em torpezas semelhantes.
Da Pulga acho, que Ovídio tem escrito, / Lucano do Mosquito, / Das Rãs Homero, e destes não desprezo, / Que escreveram matérias de mais peso / Do que eu, que canto cousa mais delgada / Mais chata, mais sutil, mais esmagada.
Quando desembarcaste da fragata, / Meu Dom Braço de Prata, / Cuidei, que a esta cidade tonta, e fátua / Mandava a Inquisição alguma estátua / Vendo tão espremida salvajola / Visão de palha sobre um Mariola.
O rosto de azarcão afogueado, / E em partes mal untado, / Tão cheio o corpanzil de godolhões, / Que o julguei por um saco de melões; / Vi-te o braço pendente da garganta, / E nunca prata vi com liga tanta.
O bigode fanado feito ao ferro / Está ali num desterro, / E cada pelo em solidão tão rara, / Que parece ermitão de sua cara: / Da cabeleira pois afirmam cegos, / Que a mandaste comprar no arco dos pregos.
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