
Os Sonetos Completos de Antero de Quental
Antero de Quental (1842–1891)
Um homem tenta pensar Deus até o fim e não sobrevive à conclusão.
Por que ler
Antero de Quental levou a filosofia alemã para dentro do soneto português e passou a vida ali. São poemas de dúvida, não de fé nem de negação. Ele se matou em 1891, e a obra é lida desde então à sombra disso — o que é justo e injusto ao mesmo tempo.
Para observar
Leia dois ou três por vez, não a coleção inteira. São argumentos, e argumento seguido cansa mais que verso.
O começo — OS CAPTIVOS
Encostados às grades da prisão, / Olham o céu os pálidos cativos. / Já com raios oblíquos, fugitivos, / Despede o sol um ultimo clarão.
Entre sombras, no longe, vagamente, / Morrem as vozes na extensão saudosa. / Cae do espaço, pesada, silenciosa, / A tristeza das cousas, lentamente.
E os cativos suspiram. Bandos de aves / Passam velozes, passam apressados, / Como absortos em íntimos cuidados, / Como absortos em pensamentos graves.
E dizem os cativos: Na amplidão / Jamais se extingue a eterna claridade… / A ave tem o voo e a liberdade… / O homem tem os muros da prisão!
Aonde ides? qual é vossa jornada? / À luz? à aurora? à imensidade? aonde? / —Porém o bando passa e mal responde: / À noite, à escuridão, ao abismo, ao nada!—
E os cativos suspiram. Surge o vento, / Surge e perpassa esquivo e inquieto, / Como quem traz algum pesar secreto, / Como quem sofre e cala algum tormento.
E dizem os cativos: Que tristezas, / Que segredos antigos, que desditas, / Caminheiro de estradas infinitas, / Te levam a gemer pelas devezas?
Antero de Quental (autor) morreu em 1891; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1962.