Carta ao Excelentíssimo Senhor Antônio Feliciano de Castilho
Antero de Quental (1842–1891)
O começo
Ex.mo Sr.
Acabo de ler um escrito de v. ex.ª onde, a propósito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se fala com áspera censura da chamada escola literária de Coimbra, e entre dois nomes ilustres se cita o meu, quase desconhecido e sobre tudo desambicioso.
Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobre maneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreocupação de fama literária, os meus hábitos de espirito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indiferente, que é como que se a nada a reduzissemos.
Estas circunstâncias pareceriam suficiente para me imporem um silencio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para falar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentissima de homem sem pretensões literárias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo logar algum, mesmo infimo, na brilhante falange das reputações contemporâneas, é por isso que, estando de fora, posso como ninguém avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso também falar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniências, de precauções, de…
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