Livros › Antero de Quental › Fiat Lux!

Capa de Fiat Lux!

Fiat Lux!

Antero de Quental (1842–1891)

Poesia7 min de leitura6 páginas

O começo

Et terra erat inanis et vacua.

Tinham os astros já mil anos, — tinham / Talvez cem mil — ou tinham um minuto — / (Pois quem sabe contar horas ou séculos / No relógio — que tem o firmamento / Por quadrante, — e algarismos, sóes e estrelas?)

'Stavam há muito ali. / O velho Cahos, / O oleiro do infinito, que entre as duas / Mãos — o tempo e o espaço — os amassára, / Cansou por fim também de fazer mundos, / Não tendo já mais barro, nem mais raios / Com que o barro pintar.

Ora, limpando / As mãos, que estavam sujas do trabalho, / E esfregando uma palma contra a outra, / Soprou depois os restos, sem ver onde, / Por esse abismo além.

Oh pó de mundos! / Migalha dos banquetes do Principio! / Triste parto das sombras, atirado / Sobre o berço de luz do firmamento! / Morcêgo horrível, meio tonto e cego, / Cahido no salão de lustres de astros!

O pó soprado, informe bola escura, / Como filho enjeitado, que se esconde / Pela sombra dos muros, foi rolando / Pelos cantos do espaço, involto em trevas… / Que o não vissem os sóes.

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Antero de Quental