Gargalhadas
Antero de Quental (1842–1891)
O começo
Risum teneatis !
Bem é falar de tristezas / Por estes tempos de risos, / Em que passa a Gargalhada / Na face dos paraísos,
E, como o vento do polo / Forte — mas triste, mas frio — / Que leva as folhas co'as flores, / Como as enchentes do rio.
É o nível da igualdade / Desde a rocha até à flor, / Desde o amor da virtude / 'Té à virtude do amor.
Como os remoinhos de pó / Que a gente vê, a tremer, / Sob-la tarde, nas estradas, / Como demônios correr;
Como a espuma batida / Que a rocha escarra no mar / E a onda depois atira, / Com escárnio, por esse ar;
Como os grôus em debandada / Ao partir-se-lhe a cadeia: / E o torvelinho que atira / No deserto os grãos de areia;
Como tudo, enfim, que geme / No abraço dos turbilhões / E, de olhos postos no inferno, / Lança ao céu as maldições:
Folhas mortas e flores vivas, / Pó da terra e diamantes, / Aguas correntes e charcos, / Os de perto e os mais distantes;
Vozes profundas da terra, / Vozes do peito gementes, / De envolto as feras bravias / Com as aves inocentes;
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