Hino da Manhã
Antero de Quental (1842–1891)
O começo
Tu, casta e alegre luz da madrugada, / Sobe, cresce no céu, pura e vibrante, / E enche de força o coração triunfante / Dos que ainda esperam, luz imaculada!
Mas a mim pões-me tu tristeza imensa / No desolado coração. Mais quero / A noite negra, irmã do desespero, / A noite solitária, imóvel, densa,
O vácuo mudo, onde astro não palpita, / Nem ave canta, nem susurra o vento, / E adormece o próprio pensamento, / Do que a luz matinal… a luz bendita!
Porque a noite é a imagem do Não-Ser, / Imagem do repouso inalterável / E do esquecimento inviolável, / Que anceia o mundo, farto de sofrer…
Porque nas trevas sonda, fixo e absorto, / O nada universal o pensamento, / E despreza o viver e o seu tormento. / E olvida, como quem está já morto…
E, interrogando intrépido o Destino, / Como reu o renega e o condena, / E virando-se, fita em paz serena / O vácuo augusto, plácido e divino…
Porque a noite é a imagem da Verdade, / Que está além das cousas transitórias. / Das paixões e das formas ilusorias, / Onde somente há dor e falsidade…
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