Iberia
Antero de Quental (1842–1891)
O começo
( Do Seculo XIX, de Penafiel, n.º 20, 1864 ).
Flor dos povos! oh tu que inda te embalas, / E inda em botão, aos ventos do futuro! / Que tens por vazos e jardins e salas / Toda a vasta extensão do tempo escuro! / E frontes gloriosas a adorná-las, / A fronte da historia, o grande auguro! / Lirio que sais do seio à humanidade / Como filha melhor — Fraternidade!
Deixa que escreva aqui teu nome todo, / E já daqui aspire teu perfume! / E, arredando co'as mãos o frio lodo / Do presente, me aqueça a esse teu lume! / Deixa beijar-te em sonho, e deste modo / Trazer-te unida ao seio, que consumme / Esta ânsia ardente de destino novo, / E este fogo roubado ao seio do povo!
Porque te vemos só quando sonhamos… / E, irmã! só nos sorris em nosso sono… / E, a dormir, doce amiga, te beijamos! / Tu — só em nossas almas — tens teu trono / Ainda! mas, sem ver-te, te adoramos, / E, como um cão fiel segue o seu dono, / Trazemos ante o olhar tua lembrança, / E caminhamos cheios de confiança!
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