
A João de Deus
Antero de Quental (1842–1891)
O começo
Fique em silencio eterno a minha lira; / Pomba do céu tu vai; Deus te bem fade, / Nesta alma em teu logar guardo a saudade, / Se a essência sobrevive à flor que expira. / ….….….….….….….….….….
Foi o canto do cisne, o canto derradeiro / Daquela augusta voz que se esvaiu no ar; / Adeus da terna amante ao seu amor primeiro / Que eterno ela julgou, mas cedo viu findar; / Ultimo adeus de quem, há pouco ainda crente / — Numa hora apenas — vê, qual sombra na corrente, / Morrer-lhe as ilusões co'a morte desse amor / E triste se envolveu no vêo de uma erma dor. / Sofreu da soledade… E onde há hi um peito / Que não sofra também, ainda ao mal afeito?
Sofreu da soledade em que a alma lhe ficou, / Depois que ao longe e triste o eco se finou / Daquela única voz , que ainda repetia / A sua voz, bem como, à tarde em fins do dia, / A nuvem que passou reflete um raio ao sol, / Que mesmo oculto a tinge aos fogos do arrebol. / Sofreu quando da sorte a mão pesada veio / Poisar-lhe sobre o peito e comprimiu ali / A ânsia que animára o arfar daquele seio, / Seio que só bateu — poesia! — amor! — por ti!
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