
Sonetos
Antero de Quental (1842–1891)
O começo — HOMO
Nenhum de vós ao certo me conhece, / Astros do espaço, ramos do arvoredo, / Nenhum adivinhou o meu segredo, / Nenhum interpretou a minha prece…
Ninguém sabe quem sou… e mais, parece / Que há dez mil anos já, neste degredo, / Me vê passar o mar, vê-me o rochedo / E me contempla a aurora que alvorece…
Sou um parto da Terra monstruoso; / Do humus primitivo e tenebroso / Geração casual, sem pai nem mãe…
Misto infeliz de trevas e de brilho, / Sou talvez Satanaz;—talvez um filho / Bastardo de Jehová;—talvez ninguém!
Antero de Quental (autor) morreu em 1891; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1962.