Per Amica Silentia Lunae
Antero de Quental (1842–1891)
O começo
Guardai in alto….….….….….….. / ….….….….….….….….….….
Dante, Inf. C. 1.º
Eu amo a noite às horas socegadas / Que o Senhor manda à terra, como balsamo / A tanta dor que a punge, e o sol do dia / Parece escarnecer com tanto brilho, / Nem sabe respeitar; quando o silencio / Com manto protetor envolve os tristes, / Os que choram saudades; quando o orvalho / Refresca o seio à flor, e em cada balsa / A viração prepassa suspirando; / Quando é mais puro o ar, mais doce a brisa, / Mais sumidos, mais vagos os rumores, / E detrás da montanha, saudosa / Como a virgem dos sonhos, surge a lua.
Eu amo então a noite. — Paz e esperança / A quem sofre, buscando algum alivio; / Ao feliz exultando de alegrias / A lembrança de Deus a quem as deve; / A quem descreu de achar inda na terra / Ventura que lhe foge… o olvido ao menos; / A toda a crença um exultar de afetos; / A todo o desconforto, uma esperança; / A toda a natureza, amor e vida; / Eis o tesouro santo que nos abre / — A nós e ao mundo — a noite, eis seu tributo.
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