
Odes Modernas (1875)
Antero de Quental (1842–1891)
O começo — Livro Primeiro/Á Historia
Mas o Homem, se é certo que o conduz, / Por entre as cerrações do seu destino, / Não sei que mão feita damor e luz / Lá para as bandas de um porvir divino… / Se, desde Prometeu até Jesus, / O fazem ir — estranho peregrino, / O Homem, tenteando a grossa treva, / Vai… mas ignora sempre quem o leva!
Ele não sabe o nome de seus Fados, / Nem vê de frente a face do seu guia. / Onde o levam os deuses indignados?… / Isto só lhe escurece a luz do dia! / Por isso verga ao peso dos cuidados; / Duvida e cai, lutando em agonia: / E, se lhe é dado que suplique e adore, / Também é justo que blasfeme e chore!
Já que vamos, é bom saber aonde… / O grão de pó que o simoun levanta, / E leva pelo ar e envolve e esconde, / Também, no turbilhão, se agita e espanta, / Também pergunta aonde vai e donde / O traz a tempestade que o quebranta… / E o homem, bago dágua pequenino, / Também tem voz na onda do destino!
Porque os evos, rolando, nos lançaram / Sobre a praia dos tempos, esquecidos, / E, náufragos de uma hora, nos deixaram / Postos ao ar, sem teto e sem vestidos. / Estamos. Mas que ventos nos deitaram / E com que fim, aqui, meio partidos, / Se um Acaso, se Lei nos céus escrita… / Eis o que a mente humana em vão agita!
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