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Pobre Moisés que Não Foste!

Manuel de Oliveira Paiva (?–1892)

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O começo

A janela estava aberta ao luar: porém, de uma grande amendoeira, que subia quase apegada aos altos muros da casa, caíam sombras ne­gras fazendo lavores imensos no pano do caiamento, e assim, era numa grande mancha, preta como uma nuvem de chuva, que a janela emoldurava-se, adquirindo as parecenças de um remendo quadrilongo, de um tampo de fogo, sobre um pano de trevas. Uma cabecinha loira despontou do ambiente luminoso, e rapidamente fechou-se. Ficou tudo no escuro cá fora, a não ser a face dos corpos onde batia o luar. O murmurejo das on­das ressoava como a escoar pelo chão.

O regato achatava-se morno e quase invisível sob rijos golpes de sombra. Um corpo alvo se encaminhava por ele acima, e ouvia-se o cha­pe-chape dos pés.

A intervalos, o corpo resplendia de luar.

Ao depois, a janela abriu uma greta, como uma larga fita de fogo, e a fita fez-se mais larga, e, em seguida, a modos que rasgou-se e de­sapareceu. Ficou tudo no escuro outra vez, a não ser a face dos corpos onde batia o luar.

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