De Preto e de Vermelho
Manuel de Oliveira Paiva (?–1892)
O começo
Um jaquetão encarnado, com enormes botões de papelão, estava a cair das costas da cadeira. Enroscava-se pelo tijolo uma calça de chita. Um colete azul, com um correntão fofo, escanchava-se, como por acaso, no punho da rede, e no relógio levíssimo escapado da algibeira lia-se uma hora e uns minutos mais adormecidos que o próprio dono. A camisa, toda manchada, como se fora de um assassino, esparramava-se no pó, e adivinhava-se por baixo dela a forma de um chapéu de feltro. Um sapato pisava na mesa, revirado, entre os livros e os frascos.
Da porta entrecerrada estendia-se uma nesga mais clara, e pelas telhas penetrava em pequenas lingüetas simétricas o dia exterior.
0 tinteiro, entornado, com o fundo azul para cima, com a larga boca embeiçava a tinta derramada como um lago de água preta. Erguida sobre a mesa a estante, com os livros silenciosos de rótulos disparados com a ocasião, uns em pilha, uns escorando-se nos outros como bois de carro.
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