A Barata e a Vela
Manuel de Oliveira Paiva (?–1892)
O começo
Conheci uma baratinha que abominava a luz tanto quanto adorava escuridão.
Como todas as baratas, obrigada a viver entoupeirada, no fundo do baú, só arriscava-se ao ar exterior à noite, quando a vela se extinguia.
Roía os bolsos dos meninos, que cheiravam a queijo e a bolo; roía um cristo de massa, cujas mãos decepadas ficavam como duas estrelas brancas nos braços da cruz; roía o sapatinho da Maricota, se untavam de óleo o couro de lustro; e (atrevida!), roeu o dedinho grande da pequena! — por modos que ao amanhecer, o pezinho mimoso, com uma pintinha em carne viva, doía, doía, e eu sentia aquilo no meu coração como se eu fosse a Senhora das Dores traspassada pelas sete farpas. Roer aquele pezinho que eu desejara cobrir de beijos, uma barata! o inseto mais repugnante que o sol cobre!
Outra vez, o nojento ortóptero pôs-se a fazer tanta bulha atrás da mala, que a menina acordou.
No dia seguinte, muito caladinha, Maricota arrastou o móvel até ao quintal, puxou uma cadeira, e, chamando as galinhas, ia desarrumando a roupa, à procura da baratinha audaciosa.
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