De Pena Atrás da Orelha
Manuel de Oliveira Paiva (?–1892)
O começo
A vidraça tinha batido na casa fronteira, sacudindo um relâmpago pelo quarto adentro, e foi como a voz do patrão que o despertasse com todas as peripécias de um carão em regra.
Depois de ter percorrido o quarto, com o lençol de chita forradinho de branco arrastando como uma capa de rei, à procura do paletó de alpaca, do colete de fustão, da calça de gazineta, da gravata e do chapéu cinzento, desenterrando tudo isso do meio da desordem geral, como de uns escombros, enfiou a bota. Esta parecia ter o rosto inchado, como o do dono, sem lustro, como se lhe houvessem esfregado uma lixa, ela, a bota que ontem à noitinha luzia como uns olhos negros!
Quando ele alçou a perna, enfiando o dedo na presilha do cano suarento, o solado amostrou uma grande parte roída que punha em evidência os pontos até à palmilha.
Aquele sapato nem mais rangia! Coitado, era como a maior parte dos rapazes, depois que se casam. Ai da rangedeira, do lustro, do tacão, do elástico, da integridade da sola e do coiro!…
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.