A Paixão
Manuel de Oliveira Paiva (?–1892)
O começo
Daquela varanda ela assistia perfeitamente às cerimônias. É verdade que ali, por ser mui alto, sentia-se toda aquela calidez incômoda todos aqueles eflúvios do corpo humano viciando o ar e subindo invisivelmente a enrubescer-lhe a tez e a perseguir-lhe o nariguinho afilado; mas por is: o mesmo estava constantemente a agitar o seu grande leque de seda, que afastava-se e aproximava-se do seu coração como uma enorme borboleta negra.
Havia claridade pouca, suficiente porém para o livro da semana santa poder espelhar-se no olhar calmo e profundo e inocente, as carreirinhas de tipos muito negrinhos no papel branco.
Todavia, a falar verdade, aquelas palavras não podiam despertar-lhe ideia alguma, visto como em um só peito não se podem abrigar dois amores ao mesmo tempo, pela lei física da impenetrabilidade.
E assim, descansava o olhar, que era o veículo por onde o seu espírito mais se impressionava, percorrendo vagamente o grande todo do templo. Tudo era vendado.
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