O Ódio
Manuel de Oliveira Paiva (?–1892)
O começo
Junto à amurada engoiava-se uma gaiola de paus, onde, como um pêndulo, sombras de velas e cordagens iam e vinham vagarosamente ao bel prazer da flutuação.
Rondava dentro da jaula um gato maior que um cachorro grande.
Perto, quando clareava, reluzia o olhar de um negro, acocorado no sopé do mastro, com as mãos cruzadas abarcando os joelhos.
Via-se bem o animal preso, movendo-se com pés de seda e garbo de mulher.
Passeava desdenhosamente. Amarelo fulvo, lindamente mouriscado com patacos pretos, como não há veludo. Quando alguém aproximava-se, a fera largava uma roncaria por entre presas, e dava botes nos paus, explodindo bufidos espantosos.
O comandante muitas vezes desanuviava a sua cerveja fazendo-se espectador da eterna aversão e tolhido orgulho do bicho feroz, de cujo cativeiro abusavam; faziam-se trejeitos, cutucavam com um bastão, davam-lhe um pau a morder, de modos que o animal parecia chorar de raiva.
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