
Sonetos de Antero
Antero de Quental (1842–1891)
O começo — DO EDITOR
Amigo Anthero, / Aproxima-te à machina: o retrato / Quero fique a primor. Eia! Arrepela-me / Essas bastas gadelhas cor das messes / Lá quando ao largo foge em tarde estuosa / O grande Moribundo ! Ergue essa fronte! / Fita-me com esse olhar tão sobranceiro / De vivo lume cheio e puro afeto! / Inclina mais ao lado o teu sombrêro, / E assenta no quadril a mão segura / Do braço firme e leal. Estende a perna… / Deixa ficar-te assim, que estás famoso.
Dezembro 1861 STÉNIO
A João de Deus
Como há para cada latitude uma estrela, para cada estrela uma luz sua; há para cada evolução da Arte uma forma própria, única, perfeita.
A forma compteta do lirismo puro é o Soneto.
A Ode , como a flor esplêndida do cátus, abre aos quatro ventos do entusiasmo as suas pétalas brilhantes, fortes, ardentes como os voos altivos, mas seguros, do gênio que julga o espaço seu e tenta avassalar o mundo.
Aquela pompa deslumbra: mas quando o vento da tarde passar, talvez vá achá-la pendida sobre os espinhos da áste, semimorta, sem que do esplendor da manhã lhe reste mais que a túnica de purpura já desbotada, em que se envolve como uma rainha decaída no manto da sua antiga realeza.
Antero de Quental (autor) morreu em 1891; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1962.