Vinte e Cinco de Março
Manuel de Oliveira Paiva (?–1892)
O começo — O Séquito
Lá vem… lá vem.., lá vem o esquife nauseabundo!… / Que silêncio, meu Deus, que silêncio profundo! / Uma legião de moscas tristes, silenciosas, / A três metros do chão abre as asas chorosas, / E vespas e morcegos, mochos e corujas / Voltejam sobre o ar meditativamente. / Anuns e bacuraus vão de casacas sujas / E como que sofrendo horrível dor de dente. / A dor transluz pungente assim como um punhal / No séquito disforme, eclético, infernal. / Nem um sinal se vê do ritual católico. / Tudo é tétrico, horrendo, frio, diabólico. / O firmamento é preto como as coisas pretas. / O mar escuridão. As nuvens grandes tetas / Donde se escorre um sangue impuro, sifilítico. / O arvoredo é imóvel qual…
E fui desanimando e fui perdendo o alento… / Senti um rude aperto. Era o espírito de Judas, / Que entrou a me explicar aquelas cenas mudas: / "Desperta, ó bom rapaz, sacode-te, olha cá. / O defunto é daqui, é do teu Ceará. / Aquele grupo nobre, de homens bem formados, / São negreiros do sul, comigo condenados. / Ouve. Começa agora um canto mavioso / De vozes guturais e de acento untuoso. / É terno canto-chão. São padres, são beatas, / Que foram virtuosos sendo escravocratas. / Não vês aquela fila que segue na frente / Levando, como cruz e lampiões sagrados, / Azorragues, chicotes, tronco e ferro ardente? / Pois são homens de Lei dos bons tempos passados. / Tu não verás assim enterro mais…
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