À Itália
Antero de Quental (1842–1891)
O começo
Italia e Portugal! que duas pátrias! / Ambas tam belas, tam amadas ambas! / Uma, a pátria do berço; outra a das almas: / Uma, a das artes; outra a dos combates!
Oh! deixai que hoje, aqui, sobre o meu peito, / As estreite, a final. — Há quanto tempo / Eu quisera juntar-vos, pelas frontes, / Beijar-vos, bem unidas, soluçando, / Como quem, tendo pai, mãe encontrasse.
Portugal! nobre filho de guerreiros! / Viste, primeiro, o sol da liberdade, / Mais feliz, não maior e nem mais digno / Que tua irmã, a Italia. — Ela, entretanto, / Chorava, olhando o céu, negro de nuvens!
Cobriram-n'a de afrontas! sobre os ombros / A toga negra, já como sudário: / O seu corpo partido em dez retalhos: / O estrangeiro assentado nos seus lares… / E não se via sol no céu da Italia!
Dizei-me vós, se pode o grande rio / Existir, sem que as fontes o basteçam? / Se pode quem nasceu fadado às glorias, / Esquecido morrer? Se os fortes netos / De Mario e de Catão, ir assentar-se / Sosinhos sobre o tumulo dos fortes / — Olhos no chão e pulsos algemados? / Se é possível que exista um povo — um povo! — / Sem ser livre, e sem sol o céu da Italia?!
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