Porque É que Minha Alma Anceia
Antero de Quental (1842–1891)
O começo
Porque é que minha alma anceia / De visões e magoas cheia, / Porque ao longe devaneia / Minha mente sem cessar? / Porque à tarde, em fins do dia, / Ao cair da maresia, / Vou sobre a costa bravia / Magoas carpir sobre o mar?
Porque se me oprime o peito / — Já de há muito à magoa afeito — / Nesse momento imperfeito, / Mixto de trevas e luz, / Quando tudo, ao longe e ao perto, / Se veste de um brilho incerto / E eu, desta alma no deserto, / Só diviso a paz na Cruz?
Porque ao murmúrio das fontes, / Quando a sombra desce os montes, / Fito o olhar nos horizontes / E fico mudo a cismar! / Porque à noite, à lua cheia, / «Por noites da minha aldeia», / Chóro e riu e devaneia / Meu agitado pensar?
Oh! quem é que assim me inspira / Á mente que me delira, / Ao coração que suspira / Allivios, consolo e paz? / Quem faz que além desta vida / Veja uma outra prometida / E anceie essa pátria querida, / Não esta pátria fallaz?
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