A Tentação de Xenócrates
Olavo Bilac (?–1918)
O começo
Nada turbava aquela vida austera: / Calmo, traçada a túnica severa, / Impassível, cruzando a passos lentos / As aléias de plátanos, - dizia / Das faculdades da alma e da teoria / De Platão aos discípulos atentos.
Ora o viam perder-se, concentrado, / No labirinto escuso de intricado, / Controverso e sofístico problema, / Ora os pontos obscuros explicando / Do Timeu, e seguro manejando / A lâmina bigúmea do dilema.
Muitas vezes, nas mãos pousando a fronte, / Com o vago olhar perdido no horizonte, / Em pertinaz meditação ficava. / Assim, junto às sagradas oliveiras, / Era imoto seu corpo horas inteiras, / Mas longe dele o espírito pairava.
Longe, acima do humano fervedouro, / Sobre as nuvens radiantes, / Sobre a planície das estrelas de ouro; / Na alta esfera, no páramo profundo / Onde não vão, errantes, / Bramir as vozes das paixões do mundo:
Aí, na eterna calma, / Na eterna luz dos céus silenciosos, / Voa, abrindo, sua alma / As asas invisíveis, / E interrogando os vultos majestosos / Dos deuses impassíveis…
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