Noturno (Olavo Bilac)
Olavo Bilac (?–1918)
O começo
Já toda a terra adormece. / Sai um soluço da flor. / Rompe de tudo um rumor, / Leve como o de uma prece.
A tarde cai. Misterioso, / Geme entre os ramos e o vento, / E há por todo o firmamento / Um anseio doloroso.
Áureo turíbulo imenso, / O ocaso em púrpuras arde, / E para a oração da tarde / Desfaz-se em rolos de incenso.
Moribundos e suaves, / O vento na asa conduz / O último raio da luz / E o último canto das aves.
E Deus, na altura infinita, / Abre a mão profunda e calma, / Em cuja profunda palma / Todo o Universo palpita.
Mas um barulho se eleva… / E, no páramo celeste, / A horda dos astros investe / Contra a muralha da treva.
As estrelas, salmodiando / O Peã sacro, a voar, / Enchem de cânticos o ar… / E vão passando… passando…
Agora, maior tristeza, / Silêncio agora mais fundo; / Dorme, num sono profundo, / Sem sonhos, a natureza.
A flor-da-noite abre o cálix… / E, soltos, os pirilampos / Cobrem a face dos campos, / Enchem o seio dos vales:
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