O Velho da Horta
Gil Vicente (1470–1536)
O começo
Esta seguinte farsa é o seu argumento que um homem honrado e muito rico, já Velho, tinha uma horta: e andando uma manhã por ela espairecendo, sendo o seu hortelão fora, veio uma Moça de muito bom parecer buscar hortaliça, e o Velho em tanta maneira se enamorou dela que, por via de uma Alcoviteira, gastou toda a sua fazenda. A Alcoviteira foi açoitada, e a Moça casou honradamente. Entra logo o Velho rezando pela horta. Foi representada ao mui sereníssimo rei D. Manuel, o primeiro desse nome. Era do Senhor de M.D.XII.
Velho : Pater noster criador, Qui es in coelis, poderoso, Santificetur, Senhor,nomen tuum vencedor, nos céu e terra piedoso. Adveniat a tua graça, regnum tuum sem mais guerra; voluntas tua se faça sicut in coelo et in terra. Panem nostrum, que comemos, cotidianum teu é; escusá-lo não podemos; inda que o não mereceremos tu da nobis. Senhor, debita nossos errores, sicut et nos, por teu amor, dimittius qualquer error, aos nosso devedores. Et ne nos, Deus, te pedimos, inducas, por nenhum modo, in tentationem caímos porque fracos nos sentimos formados de triste lodo. Sed libera nossa fraqueza, nos a malo nesta vida; Amen, por tua grandeza, e nos livre tua alteza da tristeza sem medida.
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