
Auto da Barca do Inferno
Gil Vicente (1470–1536)
Mortos chegando a um cais com duas barcas, uma para o Céu e outra para o Inferno, e o Diabo julgando cada classe social.
O começo — O Fidalgo
O primeiro intrelocutor é um Fidalgo que chega com um Pajem, que lhe leva um rabo mui comprido e űa cadeira de espaldas. E começa o Arrais do Inferno ante que o Fidalgo venha.
<põem> Diabo À barca, à barca, houlá! Que temos gentil maré! - Ora venha o caro a ré!
Companheiro Feito, feito!
Dia.
Bem está!
Vai tu muitieramá, atesa aquele palanco e despeja aquele banco, pera a gente que virá.
À barca, à barca, hu-u! Asinha, que se quer ir! Oh, que tempo de partir, louvores a Berzebu! - Ora, sus! que fazes tu? Despeja todo esse leito!
Comp. Em boa hora! Feito, feito!
Dia. Abaixa aramá esse cu! Faze aquela poja lesta e alija aquela driça.
Comp. Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!
Dia. Oh, que caravela esta! Põe bandeiras, que é festa. Verga alta! Âncora a pique! - Ó poderoso dom Anrique, cá vindes vós?… Que cousa é esta?…
Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz: Esta barca onde vai ora, que assi está apercebida?
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