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Auto da Índia

Gil Vicente (1470–1536)

Teatro12 min de leitura11 páginas

O começo

À Farsa seguinte chamam Auto da Índia. Foi fundada sobre que ũa mulher, estando já embarcado pera a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava desaviado e que já não ia; e ela, de pesar, está chorando e fala-lhe ũa sua criada. Foi feita em Almada, representada à muito católica Rainha Dona Lianor. Era de 1509 anos. Entram nela estas figuras: Ama (Constança), Moça, Castelhano (Juan de Zamora), Lemos, Marido.

Moça

Jesu! Jesu! que é ora isso? É porque se parte a armada?

Ama

Olhade a mal estreada! Eu hei-de chorar por isso?

Moça

Por minh' alma que cuidei e que sempre imaginei, que choráveis por noss' amo.

Ama

Por qual demo ou por qual gamo, ali, má hora, chorarei? Como me leixa saudosa! Toda eu fico amargurada!

Moça

Pois por que estais anojada? Dizei-mo, por vida vossa.

Ama

Leixa-m', ora, eramá, que dizem que não vai já.

Moça

Quem diz esse desconcerto?

Ama

Dixeram-mo por mui certo que é certo que fica cá. O Concelos me faz isto.

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