
Auto da Índia
Gil Vicente (1470–1536)
O começo
À Farsa seguinte chamam Auto da Índia. Foi fundada sobre que ũa mulher, estando já embarcado pera a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava desaviado e que já não ia; e ela, de pesar, está chorando e fala-lhe ũa sua criada. Foi feita em Almada, representada à muito católica Rainha Dona Lianor. Era de 1509 anos. Entram nela estas figuras: Ama (Constança), Moça, Castelhano (Juan de Zamora), Lemos, Marido.
Moça
Jesu! Jesu! que é ora isso? É porque se parte a armada?
Ama
Olhade a mal estreada! Eu hei-de chorar por isso?
Moça
Por minh' alma que cuidei e que sempre imaginei, que choráveis por noss' amo.
Ama
Por qual demo ou por qual gamo, ali, má hora, chorarei? Como me leixa saudosa! Toda eu fico amargurada!
Moça
Pois por que estais anojada? Dizei-mo, por vida vossa.
Ama
Leixa-m', ora, eramá, que dizem que não vai já.
Moça
Quem diz esse desconcerto?
Ama
Dixeram-mo por mui certo que é certo que fica cá. O Concelos me faz isto.
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