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Auto de Mofina Mendes

Gil Vicente (1470–1536)

Teatro17 min de leitura15 páginas

O começo

A obra seguinte foi representada ao excelente Príncipe e muito poderoso Rei Dom João III, endereçada às matinas do Natal, na era do Senhor, 1534.

Figuras:

Entra primeiramente um Frade, e a modo de pregação diz o que se segue :

Frade :

Três coisas acho que fazem ao doido ser sandeu: uma ter pouco siso de seu, a outra, que esse que tem não lhe presta mal nem bem: e a terceira, que endoidece em grã maneira, é o favor (livre-nos Deus) que faz do vento cimeira, e do toutiço moleira, e das ondas faz ilhéus. Diz Francisco de Mairões, Ricardo e Bonaventura, não me lembra em que escritura, nem sei em quais distinções, nem a cópia das razões; mas o latim creio que dizia assim: Nolite vanitatis debemus con lidere de his, qui capita sua posuerunt in

[manibus ventorum etc.

Quer dizer este matiz entre os primores que traz: não é sisudo o juiz que tem jeito no que diz e não acerta o que faz. Diz Boécio - de consolationis, Origines - Marci Aureli, Sailustius - Catilinarium, Josefo - speculum beili, glosa interliniarum; Vicentius - scala coeli, magister sententiarum, Demosthenes, Calistrato; todos estes concertaram com Scoto, livro quarto. Dizem: não vos enganeis, letrados de rio torto, que o porvir não no sabeis, e quem nisso quer pôr péis tem cabeça de minhoto. O bruto animal da serra, ó terra filha do barro, como sabes tu, bebarro, quando há-de tremer a terra, que espantas os bois e o carro? - pelos quais dixit Anselmus, e Seneca, - Vandaliarum, e Plinius -…

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