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Farsa de Inês Pereira

Gil Vicente (1470–1536)

Teatro27 min de leitura24 páginas

O começo

A seguinte farsa de folgar foi representada ao muito alto e mui poderoso rei D. João, o terceiro do nome em Portugal, no seu Convento de Tomar, era do Senhor de MDXXIII. O seu argumento é que porquanto duvidavam certos homens de bom saber se o Autor fazia de si mesmo estas obras, ou se furtava de outros autores, lhe deram este tema sobre que fizesse: segundo um exemplo comum que dizem: mais quero asno que me leve que cavalo que me derrube. E sobre este motivo se fez esta farsa.

A figuras são as seguintes: Inês Pereira; sua Mãe; Lianor Vaz; Pêro Marques; dous Judeus (um chamado Latão, outro Vidal); um Escudeiro com um seu Moço; um Ermitão; Luzia e Fernando.

Finge-se que Inês Pereira, filha de hũa mulher de baixa sorte, muito fantesiosa, está lavrando em casa, e sua mãe é a ouvir missa, e ela canta esta cantiga:

Canta Inês:

Quien con veros pena y muere Que hará quando no os viere?

(Falando)

Inês

Renego deste lavrar E do primeiro que o usou; Ó diabo que o eu dou, Que tão mau é daturar. Oh Jesu! que enfadamento, E que raiva, e que tormento, Que cegueira, e que canseira! Eu hei-de buscar maneira Dalgum outro aviamento. Coitada, assi hei-de estar Encerrada nesta casa Como panela sem asa, Que sempre está num lugar? E assi hão-de ser logrados Dous dias amargurados, Que eu possa durar viva? E assim hei-de estar cativa Em poder de desfiados? Antes o darei ao Diabo Que lavrar mais nem pontada. Já tenho a vida cansada De fazer sempre dum cabo. Todas folgam, e eu não, Todas vêm e todas vão Onde querem, senão eu. Hui! e que pecado é o meu, Ou que dor de coração? Esta vida he mais que morta.…

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