O Sonho de Marco Antônio
Olavo Bilac (?–1918)
O começo — I
Noite. Por todo o largo firmamento / Abrem-se os olhos de ouro das estrelas… / Só perturba a mudez do acampamento / O passo regular das sentinelas.
Brutal, febril, entre canções e brados, / Entrara pela noite adiante a orgia; / Em borbotões, dos cântaros lavrados / Jorrara o vinho. O exército dormia.
Insone, entanto, vela alguém na tenda / Do general. Esse, entre os mais sozinho, / Vence a fadiga da batalha horrenda, / Vence os vapores cálidos do vinho.
Torvo e cerrado o cenho, o largo peito / Da couraça despido e arfando ansioso, / Lívida a face, taciturno o aspeito, / Marco Antônio medita silencioso.
Da lâmpada de prata a luz escassa / Resvala pelo chão. A quando e quando, / Treme, enfunada à viração que passa, / A cortina de púrpura oscilando.
O general medita. Como, soltas / Do álveo de um rio transvazado, as águas / Crescem, cavando o solo, - assim, revoltas, / Fundas a alma lhe vão sulcando as mágoas.
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