Sonho que Estás à Porta
Olavo Bilac (?–1918)
O começo
Sonho que estás à porta… / Estás - abro-te os braços! - quase morta, / Quase morta de amor e de ansiedade. / De onde ouviste o meu grito, que voava, / E sobre as asas trêmulas levava / As preces da saudade?
Corro à porta… ninguém! Silêncio e treva. / Hirta, na sombra, a Solidão eleva / Os longos braços rígidos, de gelo… / E há pelo corredor ermo e comprido / O suave rumor de teu vestido, / E o perfume subtil de teu cabelo.
Ah! se agora chegasses! / Se eu sentisse bater em minhas faces / A luz celeste que teus olhos banha; / Se este quarto se enchesse de repente / Da melodia, e do dano ardente / Que os passos te acompanha:
Beijos, presos no cárcere da boca, / Sofreando a custo toda a sede louca, / Toda a sede infinita que os devora, / - Beijos de fogo, palpitando, cheios / De gritos, de gemidos e de anseios, / Transbordariam por teu corpo afora…
Rio aceso, banhando / Teu corpo, cada beijo, rutilando, / Se apressaria, acachoado e grosso: / E, cascateando, em pérolas desfeito, / Subiria a colina de teu peito, / Lambendo-te o pescoço…
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