À Rosa
Manuel Botelho de Oliveira (?–1711)
O começo
I Inundações floridas de Amaltéia / Prodigamente Clóri derramava / E líquida em rocio a sombra feia / No fraudulento Bruto, o Sol brilhava: / Quando entre tanta flor, que Abril semeia, / Fidalgamente a rosa se adornava, / Ostentando por garbo repetido / De ouro o toucado, de âmbar o vestido.
II Esta gala, que veste generosa, / Deve aos cândidos pés da Deusa amante, / E ficando no orvalho mais lustrosa, / Deve estimar da Aurora o mal constante: / De sorte que no prado fica a Rosa / Com desditas alheias arrogante, / Pois quando se entroniza brilhadora, / Sangue de Vênus tem, pranto de Aurora.
III Quando esse Deus de raios aparece, / Agrado dando à vista, luz ao prado, / A Deidade das flores amanhece, / Ao prado dando luz, à vista agrado: / E quando a Primavera resplandece / Com gala verde, e brilhador toucado, / Fica sendo no adorno de verdores / Jóia esta flor, e gargantilha as flores.
IV Em galharda altivez tanto se afina, / Que vestida de púrpura formosa / Adulação se arroga de divina, / Desprezando o primor de majestosa: / Por Deidade do campo peregrina / Não lhe faltam perfumes de olorosa, / E quando Deusa dos jardins e aclamo, / Faz templo do rosal, altar do ramo.
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