Que Pavor, que Crueza?
Manuel Botelho de Oliveira (?–1711)
O começo
I Que pavor, que crueza? / Que pena, que desdita a Lísia enluta! / Já do pranto a tristeza, / Como mar lagrimoso, ao mar tributa; / Vendo Netuno, para novo espanto, / Que tem dois mares, quando corre o pranto.
II Espanha lastimada / Pelas razões do sangue generoso, / Toda se mostra irada, / E brama contra o golpe rigoroso, / E para ser no Mundo mais temido, / Por boca do Leão faz o bramido.
III Mostra Alemanha o fino / Excesso quando sente o seu tormento, / Porque do Palatino / A pátria faz ser próprio o sentimento; / E o Danúbio, que é rio arrebatado, / Parece que na dor se vê parado.
IV França, que nobremente / A Lusitânia ostenta amor seleto, / De luto reverente / A seus Francos vestiu com franco afeto; / E tendo nesta mágoa altas raízes, / Em roxos lírios troca as brancas Lises.
V Itália a dor publica / Em Florença, que rica se nomeia, / Mas de mágoas é rica; / Nápoles bela em dor se torna feia: / Porém Roma, que santa se conhece, / Com Princesa tão santa se engrandece.
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