Salmos do Prisioneiro
Jaime de Magalhães Lima (1859–1936)
O começo — I
Da lívida tormenta, que em nuvens repassadas do seu luto turva o dia amoroso de setembro, cai sobre a terra a chuva maternal a dar seu leite às seivas minguadas e a dar aos pômos tumidos a unção de um derradeiro e salutar frescor.
Realça na levada alvas espumas; redobra no açude o seu cantar; banha em cristal a rama dos carvalhos; a veiga reverdece; e o pinheiral, que àlêm sofria a sede entre os penhascos donde, heroico, brotou a desmentir-lhes sua infecunda aspereza abandonada, serenamente bebe o refrigério, como sofreu sereno a crueldade da ardência do estio prolongado, seus ramos apontados às estrelas, quer padeça tormentos, que se exalte em bens das suas horas mais felizes,—por certo vendo amor que nós não vemos, mas que em suas esmolas nós sentimos, na sombra, na fogueira e na choupana, no tecto dos casais e sobre as águas, salvando do naufrágio os desvairados filhos de cobiça.
Ao longe, o traço agudo das montanhas cortando a seu capricho os horizontes, seus píncaros audazes e a profundeza das suas largas sombras misteriosas; e as ermidas onde vivem, guardadas da corrupção do mundo e da mentira, a fé e a singeleza; e os castelos onde em ruínas penam as vaidades e as ilusões do orgulho e fortaleza—todos dos nossos olhos se perderam na confusão das nuvens insondáveis, todos por sorte igual já se ocultaram na plácida cinza humedecida que brandamente os cobre em seu repouso.
Jaime de Magalhães Lima (autor) morreu em 1936; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2007.