José Estevão
Jaime de Magalhães Lima (1859–1936)
O começo — I
Por muito que a dependência pése ao orgulho da especie, a grandeza dos homens tem de referir-se às circunstâncias do seu tempo. A vulgaridade do preceito e os vícios e erros da sua aplicação infinitamente repetida não lhe prejudicaram a legitimidade e inteireza; não isentam da necessidade de o considerarmos e respeitarmos na apreciação de qualquer cuja fisionomia tentamos analisar, herói ou deus que ele houvesse sido. No mais vil como no mais nobre penetrou uma parcela, por vezes mínima e em muitas outras capital, de uma energia alheia e inconsciente, arrastando, involvendo e confundindo na sua vibração o caráter individual. Agora sucumbe e logo resiste, hoje cede e amanhã domina, ora luta…
De tal intimidade e tão persistente ficarão a todos, sem excepção, no aspecto, nas tendencias e inclinações, em todo o modo de ser físico e moral, traços que não são nossos, que não viéram de nós, que não creámos, que nos foram como impostos, gravados por atividades externas; e ao mesmo tempo, sob essas pressões, perdem-se elementos próprios da nossa personalidade ou, pelo menos, atenuam-se e afrouxam na expansão. O criminoso e o santo, o maior resplendor e a infima miséria, nenhum fugiu às contingencias dessa lei. Quantos se ergueram em fama e ventura e quantos rolaram no pó da ultima desgraça e da obscuridade, todos foram bafejados ou flagellados pelos turbilhões anônimos da sua época.
Jaime de Magalhães Lima (autor) morreu em 1936; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2007.