Rogações de Eremita
Jaime de Magalhães Lima (1859–1936)
O começo — I
Parei no meu caminho a colher rosas. No doce esplendor da sua gloria, brotavam purpurinas entre o cômoro renovado no viço pelo outono. E o sol brando que vinha do nascente, e a palidez do céu já esmorecido do seu fulgor candente do Estio, e a atmosfera quieta e orvalhada, e o silencio do campo onde desponta o prado que no inverno o cobre e é a sua túnica,—cantavam com as rosas a doçura e em minha alma infundiam subtilmente os salutares enlêvos dos seus sonhos.
Acordou-me de encantos a pobreza. Alguém, passando, me estendeu a mão, mirrada e pálida de fadiga e fome. Ouvi um brando murmurar de suplica; e o coração turvado de piedade transmudou em misericórdia o seu deleite. Um resplendor mais alto escurecera a cintilação da terra em seu fulgor.
Levei comigo as rosas que colhi, para me alentarem de um sorrir ingénuo meu peito ferido na jornada agreste em que dolorosamente se consome sangrando magoado de perversidade, de ódios, de mentira, de quanto avilta os homens desvairando-os nos seus cruéis infernos de cobiças. Mas sempre que senti a rosa bafejar-me, senti perpassar também vozes mendigas. Por singular magia, confundi em uma só aspiração e um só amor as rosas e a pobreza.
Jaime de Magalhães Lima (autor) morreu em 1936; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2007.