
O Cortiço
Aluísio Azevedo (1857–1913)
O prédio é o personagem: cresce, engorda e devora quem mora nele.
Por que ler
Aluísio Azevedo publicou em 1890 um romance em que o ambiente decide o destino das pessoas — é a tese naturalista levada até o fim. Vale ler pelo retrato do Rio pobre do século XIX, e vale discutir: o livro explica gente por raça e por meio, e isso é parte do que se estuda nele hoje.
Para observar
Note quando o narrador descreve o cortiço como se fosse um corpo vivo. E note o que ele diz sobre as personagens negras e portuguesas — a visão do autor está ali, e é datada.
O começo — I
João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro de Botafogo; e tanto economisou do pouco que ganhára nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.
Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que affrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lh'a, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fóra e amigada com um português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade.
Aluísio Azevedo (autor) morreu em 1913; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1984.