Girândola de Amores
Aluísio Azevedo (1857–1913)
O começo — I
Clorinda acabava de pôr o seu véu de noiva e, de costas para o espelho, olhava por sobre o ombro a cauda do vestido.
A velha Januária pregava-lhe com muita solicitude o último alfinete dourado, e, como representasse para ela o papel de mãe, repetia-lhe baixinho, com a voz comovida e os óculos embaçados pelas lágrimas, os invariáveis conselhos adequados à situação.
Aos pés de Clorinda, ajoelhada no tapete, uma mucama arranjava-lhe cuidadosamente a barra do vestido, compunha e ordenava os folhos e desfazia e ajeitava as pregas do cetim.
E a noiva, toda enlevada na cerimônia daquela roupa, sorria sem saber de quê e sentia enrubescerem-se-lhe as faces por uma delicada previsão do seu pudor.
Estava linda assim toda de branco, com o seu longo véu de filó, que lhe envolvia o busto gracioso, deixando todavia perceber o doce relevo da cabeça, engrinaldada de pálidas flores de laranjeira.
Tinha os olhos azuis, muito transparentes, a tez de uma brancura imaculada, os cabelos entre louro e castanho, os dentes adoráveis e a boca um mimo cor-de-rosa.
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