
Rainha sem Reino (Estudo Histórico do Século XV)
Alberto Pimentel (1849–1925)
O começo — I SEGREDOS DA ALCOVA...
A infanta de Portugal, D. Joanna, filha de el-rei D. Duarte e da rainha D. Leonor de Aragão, nasceu póstuma, em março de 1439. Duas grandes fatalidades pareceram cobrir com a sua aza negra o berço da infantasinha portuguesa: o luto pela morte de seu pai, esse ilustrado e infeliz rei para quem a vida fora pouco menos de um martírio ininterrupto, e a peste que então grassava em Lisboa, obrigando a corte da rainha viúva a retirar-se para Almada, onde a infanta nascera na quinta de Monte Olivete.
Menos feliz do que sua irmã D. Philippa, 6 que nesse mesmo ano morrera menina, tocada da peste, D. Joanna foi desabrochando as graças da sua infância no meio de uma corte melancólica, perturbada pelas lutas politicas da regência, entregue ao cuidado da sua aia Maria Nogueira, e, mais tarde, confiada à companhia da sua camareira-mór D. Isabel de Menezes, mulher de Ruy de Mello, alcaide-mór de Elvas.
Menina e moça, a infanta, extremamente bela, fazia lembrar uma flor que vegeta à beira de um tumulo, porque essa corte viúva, onde a triste reina não tinha uma hora de serenidade de espirito, não era, de feito, mais do que o tumulo de todas as alegrias de família, porque não as teve a de D. Duarte, nem a de seu filho Affonso V.
Alberto Pimentel (autor) morreu em 1925; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1996.