
Manhãs de Cascaes
Alberto Pimentel (1849–1925)
O começo — O primeiro mosquito
Chegou o inimigo.
Ouvi ontem o seu clarim vibrante ressoar sobre a minha cabeça em som de guerra.
Era a guarda avançada do grande exercito alado do verão, hunos do ar que invadem os nossos quartos de cama zombando perfidamente de todas as nossas precauções e dilacerando-nos a carne com o seu pequenino áspide, agudo como um punhal.
—Ah! disse eu. É o primeiro mosquito que chega!
E estremeci de horror.
É que se há animal neste mundo que me incomode, que seja incompatível comigo, esse animal é o mosquito,—o pequeno mosquito, um dos mais sanguinários inimigos da humanidade.
Uma vez, em certa praia, um amigo meu mostrou-me o seu quarto, cujas paredes estavam revestidas de uma estranha pintura,—arabescos de sangue, o sangue da vítima, o sangue dele, o desgraçado!
—Entram os mosquitos, dizia-me o meu pobre amigo, e roubam-me o que eu tenho menos, roubam-me o sangue. Eu, não podendo repelir a agressão, porque essa praga de mosquitos vem aos centos, adotei a estrategia de os deixar cevarem-se à vontade. Engordam e agiboiam-se, ficam obesos e inertes. Então soa a hora da minha vingança, pego num sapato e atiro-me a eles como S. Thiago aos mouros. Pá! pá! sapatada para a direita, sapatada para a esquerda, aqui se esborracha um, ali se estampa outro, a parede salpicada de sangue parece um crivo, um mapa, e é assim que eu, durante um mês, tenho conseguido ornamentar o meu quarto com esta estranha decoração, arabescos de sangue roubado às minhas próprias…
Alberto Pimentel (autor) morreu em 1925; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1996.