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Fabulas (9ª Edição)

Monteiro Lobato (?–1948)

Infantojuvenil1 h 50 de leitura105 páginas

O começo — 1

Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.

Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.

A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.

Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu — tic, tic, tic …

Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num chalinho de paina.

— Que quer? perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.

— Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu…

A formiga olhou-a de alto a baixo.

— E que fez durante o bom tempo que não construiu sua casa?

A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse:

— Eu cantava, bem sabe…

— Ah!… exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa arvore enquanto nós labutavamos para encher as tulhas?

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