
Fabulas (9ª Edição)
Monteiro Lobato (?–1948)
O começo — 1
Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé dum formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento então era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas. Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu — tic, tic, tic …
Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num chalinho de paina.
— Que quer? perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
— Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu…
A formiga olhou-a de alto a baixo.
— E que fez durante o bom tempo que não construiu sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse:
— Eu cantava, bem sabe…
— Ah!… exclamou a formiga recordando-se. Era você então quem cantava nessa arvore enquanto nós labutavamos para encher as tulhas?
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