
As Reinações de Narizinho
Monteiro Lobato (?–1948)
O começo — Narizinho Arrebitado
NUMA casinha branca, lá no sítio do Picapau Amarello, mora uma velha de mais de sessenta anos. Chama-se dona Benta. Quem passa pela estrada e a vê na varanda, de cestinha de costura ao colo e óculos de ouro na ponta do nariz, segue seu caminho pensando:
— Que tristeza viver assim, tão sozinha neste deserto…
Mas engana-se. Dona Benta é a mais feliz das vóvós, porque vive em companhia da mais encantadora das netas — Lucia, a menina do narizinho arrebitado, ou Narizinho como todos dizem. Narizinho tem sete anos, é morena como um jambo, gosta muito de pipóca e já sabe fazer uns bolinhos de polvilho bem gostosos.
Na casa ainda existem duas pessoas — tia Nastacia, negra de estimação que carregou Lucia em pequenina, e Emilia, uma boneca de pano bastante desageitada de corpo. Emilia foi feita por tia Nastacia, com olhos de retrós preto e sobrancelhas tão lá em cima que é ver uma bruxa. Apesar disso Narizinho gosta tanto dela que nunca almoça ou janta sem a ter ao lado, nem se deita sem primeiro acomodá-la numa redinha armada entre dois pés de cadeira.
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