
Fabulas de Narizinho
Monteiro Lobato (?–1948)
O começo — A cabra, o cabritinho e o lobo
Cuidado, meu filho! O mundo anda cheio de perigos. Não abras a porta a ninguém antes de pedir a senha.
— E qual é a senha, mamãe?
— A senha é: "Para os quintos o lobo e toda a sua raça".
Decorou o cabritinho aquelas palavras e a cabrita lá se foi, sossegada da vida.
Mas o lobo, que rondava a casa, e ouvira a conversa, sem demora aproximou-se e bateu. E, disfarçando a voz, repetiu a senha.
O cabritinho correu a abrir, mas ao pôr a mão no ferrolho, desconfiou. E pediu:
— Mostre-me a pata branca, faz favor…
Pata branca era coisa que o lobo não tinha e que não pôde mostrar, portanto. E de focinho comprido, desapontadissimo, não teve remédio senão ir-se embora como veio — de papo vazio…
Assim se salvou o cabritinho, porque teve a boa ideia de confiar, desconfiando…
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